Impacto da comparação
em crianças e adolescentes
Certamente, lembra-se de ouvir em criança ou adolescente algo como “Mas o teu primo não faz isso. Só tu é que és assim”.
Existe sempre alguma comparação que nos foi feita na infância/adolescência e que nunca mais esquecemos.
Pois é, poucas coisas nos marcam tanto como as comparações e, mesmo que a intenção dos nossos pais ou cuidadores seja boa ou de incentivo, a comparação não é benéfica e pode realmente deixar marcas em nós.
Um dos grandes problemas com o uso da comparação é que afeta o desenvolvimento da autoestima e autoconhecimento, pois a criança/adolescente sente então a necessidade de ser como o outro e “esquecesse” de si como pessoa individual e única.
Todos queremos ser amados e acarinhados pelos nossos pais e cuidadores. Ao sermos comparados cria uma frustração em nós, pois sentimos que não somos aquilo que esperam de nós e, ao mesmo tempo, sentimo-nos impedidos de descobrir quem somos.
As crianças e adolescentes passam por fases de descoberta, transformação e construção, mas quase sempre têm como referência os adultos mais próximos e, por isso, as suas opiniões e expectativas afetam a criança/adolescente sobretudo na forma de uma comparação.
E podem acontecer, por exemplo, os seguintes cenários:
- A criança que é comparada desenvolve sentimentos de angústia, de inferioridade, sentindo-se inútil e incapaz de corresponder às expectativas que têm sobre si;
- A criança que é valorizada fica presa a esse rótulo transportando consigo o fardo que isso acarreta – ser responsável, não cometer erros, ser perfeito…
Mesmo que os pais ou cuidadores façam estas comparações com a melhor das intenções, com o intuito de nos motivar, não sabem como é que a criança/adolescente está a interpretar aquela informação e, consequentemente, qual o seu impacto nela.
Para além disso, por norma fazemos comparações injusto (se é que há comparações justas) ao comparar, por exemplo, as notas da nossa criança/adolescente ao melhor aluno da turma e não a uma média entre turmas do mesmo ano.
Não pensamos que aquele melhor aluno também não é perfeito e que não sabe tudo sobre tudo.
Impacto da Comparação
Independentemente da sua intenção ou objetivo, a comparação não vai trazer benefícios.
A criança ou adolescente pode tornar-se insegura devido ao medo, mas também pode tornar-se agressiva para se defender.
Cria-se um sentimento de competitividade que pode muito bem causar pressão para que sejam perfeitos, acabando por gerar frustração, insegurança, stress e até ciúmes e inveja! Para não falar no desgaste que é causada na relação entre pais/cuidadores e criança/adolescente.
A autoestima da criança ou adolescente fica fortemente afetada. Poderá sentir-se inútil e tentar arranjar áreas nas quais se destaque para tentar sobressair e compensar a diferença.
No entanto, esta procura não acaba por ser totalmente benéfica, pois a criança/adolescente não o faz por querer, mas sim para tentar agradar aos outros.
Antes demais, pais e cuidadores devem compreender que cada criança e adolescente é uma pessoa individual, única e, por isso, com características próprias.
Isto significa que o seu tempo de desenvolvimento, método e ritmo de aprendizagem, comportamentos, preferências também lhe vão ser particulares.
Deste modo, de pouco adianta comparar diferentes crianças/adolescentes já que vão ter obviamente diferentes genéticas, personalidades, histórias de vida e experiências.
Em vez de comparar, tente:
- Ser empático e colocar-se no lugar da criança/adolescente;
- Valorize as capacidades e habilidades que a criança/adolescente tem;
- Valorize os seus esforços e tentativas mesmo que não sejam bem-sucedidas;
- Não crie expectativas. Estimule a criança/adolescentes a criar e seguir os seus próprios sonhos e objetivos;
- Não estimule competições, mas sim aprimoramento das suas habilidades;
- Lembre-se que errar é humano. Foque-se em explicar o porquê de não ser correto e dar alternativas.
Mais uma vez, acima de tudo, aquilo que qualquer criança/adolescente quer é ser amado e aceite pelos pais/cuidadores.
É importante que a criança/adolescente sinta que é reconhecida, aceite e amada como é e, que ter ou não ter determinada habilidade não define o quanto os pais/cuidadores gostam de si.
Aqui há uns dias durante uma pesquisa, li algures um comentário de um psicólogo que dizia que se começássemos a aceitar e respeitar as crianças e adolescentes como são, metade dos problemas que existem com eles ficariam resolvidos.
Se calhar vale a pena refletir sobre isto…
